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O masso-rob (parte 1)

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por Philippe Souchard

BASE TERRESTRE B-24 – DISTRITO GERAL DOS ASSUNTOS CRIMINAIS JANEIRO DO ANO 2110

– Sente-se, Inspetor Principal, você pode fumar um dos seus horríveis charutos de Trantos, se desejar.

Alphan desaba sua grande carcaça na poltrona que lhe é indicada e suspira interiormente. Se suas relações com seu superior, o Comissário Geral Loockeed eram sempre desprovidas de qualquer hipocrisia, ele sabia reconhecer quando este projetava confiar-lhe um novo caso difícil.

– Em que pé está sua investigação sobre a transferência ilegal de fundos entre o planeta-mãe e Hyperos 2?

– Praticamente encerrado, Senhor, os exportadores siderais retiraram sua queixa por malversação, quando eu descobri que aquilo encobria, na realidade, um tráfico de Herba Santa, a droga em uso por lá. Mas já sei o suficiente para transmitir o dossier aos narcos-op. Eles mesmos já estavam na pista.

– Excelente, isso lhe deixa então um pouco de tempo livre.

– Sim, Senhor, para aproveitar de oito dias de pesca em Alcor, parece que as enguias elétricas, lá, são do tamanho dos espadões.

– Dizem também que as nativas de lá são muito bonitas.

– É sempre mais agradável comer um peixe grelhado em companhia de uma graciosa mulata, Senhor.

– Certo, felizardo, mas antes de partir, eu gostaria que você metesse seu nariz em um assunto que me incomoda. Ouviu falar do assassinato do Senador Alexis?

– Como escapar? Os holo-infos nos enchem os ouvidos há vinte e quatro horas. Ele foi assassinado por um cinésio amante da sua mulher?

– Exato, seu colega Exon só precisou de quatro horas para esclarecer a coisa e é isso mesmo que me incomoda. Tudo parece simples demais. O Senador teve o pescoço quebrado, no consultório mesmo do cinésio, que pretende não ter nem tocado nele. Ora, a menos de ser um perfeito imbecil, que interesse teria ele em matá-lo no seu próprio consultório?

– Uma briga por causa da mulher? Arrisca Alphan.

– Isto parece excluído. O Senador ignorava tudo das infidelidades de sua esposa, ou não ligava. Era muito ocupado, você sabe que ele era um dos cem principais personagens do Império. Por outro lado, não há nenhum sinal de luta. Você tem ainda como amigo aquele cinésio-arcaico ao qual você me mandou?

– Sempre, por quê? Continua mal da coluna vertebral?

– Que o além me preserve! Ele fez em uma consulta o que os masso-robs não haviam feito em cem. Isto dito, é uma experiência estranha, na aurora do nosso século XXII, fazer-se tratar manualmente por um terapeuta, por mais dotado que seja ele. Eu gostaria que você tomasse conhecimento do dossier e que você falasse com seu amigo. Se encontrar alguma coisa interessante, eu repassarei o bebê ao Inspetor Exon, para não estragar suas férias.

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Bob Sainton, o assassino presumido, não tinha ares de um idiota. Quando Alphan penetrou na bolha de isolamento magnético instalada pela polícia no próprio local de seu trabalho, ele dedilhava calmamente o teclado do advogado eletrônico que haviam posto a sua disposição. Já havia estabelecido um relatório detalhado sobre suas relações com Olfair, a mulher do Senador, e completava a lista de suas outras conquistas.

Alphan ficou surpreso, o aspecto banal do personagem não fazia dele um Don Juan. Procurava-lhe um qualificativo. Asséptico parecia-lhe mais adaptado. O cinésio era insípido como os apresentadores de publicidade holo, fiéis gravadores humanos para consumidores crédulos. Mas, afinal, era de bom tom que ele procurasse provar que suas relações com as mulheres eram de caráter sexual e não passional. Seria preciso verificar tudo isso. Pensou em suas férias comprometidas. Por outro lado, o cinésio não lhe revelou nada que já não soubesse. Aparentemente, ele não tirava vantagem alguma do crime que, não somente, arruinava sua vida profissional mas era capaz, principalmente, de enviá-lo à prisão no asteróide Baixa-Terra por longos anos.

Ele insistia em afirmar que estava respondendo a uma chamada em holo-visão no momento em que o Senador havia sido morto, e jogava a responsabilidade sobre seu masso-rob. Vagamente deprimido, Alphan empreendeu a visita aos locais profissionais. O lugar fervilhava de atividade, numerosos técnicos do lab-central ocupavam-se em levantar os últimos indícios.

Encontrou sem dificuldade o engenheiro robótico ocupado em auscultar, mais uma vez, o masso-rob. Jovem e dinâmico, este lhe fez um relatório preciso, como ele os apreciava.

– Trata-se, Inspetor, do último modelo lançado, o mais performante mas também o mais complexo e ele se encontra em estado de catalepsia.

Alphan lança um olhar de desgosto sobre a dezena de pseudópodes afobados, de um lado e do outro da mesa de massagem. O masso-rob parecia um polvo destinado a uma decomposição rápida.

– Você quer dizer que ele está com defeito?

– Vamos, Inspetor, você bem sabe que a classe dos robôs-terapeutas é do mesmo nível daqueles que pilotam as naves espaciais. Eles têm a capacidade de se auto-regenerar, para os estragos menores, e alertam automaticamente sua unidade de fabricação em caso de previsão de defeito grave. Não se pode fazer melhor.

Alphan se auto-censurou, não por passar por um ignorante frente a esse jovem engenheiro visivelmente apaixonado por seu trabalho, mas por ter revelado assim sua aversão pelas “máquinas” , como ele gostava de qualificar os robôs, qualquer que seja sua função.

– Este masso-rob, prossegue o engenheiro, foi, sem dúvida alguma, vítima de um conflito interno, mas talvez você prefira “estado de ânimo”, na sua interpretação das três leis da robótica de Azimov, que constituem sua programação de base. A primeira ordena-lhe que jamais faça mal a um ser humano; a segunda, que obedeça às ordens que lhe são dadas, se isto não contradiz a primeira lei; a terceira lhe diz para proteger a si mesmo, se isto não está em contradição com a primeira e a segunda leis. No caso presente, existe, de toda evidência, conflito de interpretação entre a primeira e a segunda lei, e ele, de certa forma, suicidou.

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Aliás, eu verifiquei todos os registros de tratamento do cinésio pelos dois últimos anos. Como todo cinésio moderno que se respeita, ele jamais toca seus pacientes. Como poderia ser diferente, já que ele possui o modelo de masso-rob mais performante da atualidade?

Tampouco houve tentativa de sabotagem do masso-rob. É teoricamente impossível reprogramar-lhe uma intenção de fazer mal. As três leis são inscritas em todas as suas funções vitais. Mas, por desencargo de consciência, eu verifiquei todas as seguranças ditas primordiais. Elas estão em perfeito estado. Ninguém tentou violá-las.

– Tecnicamente, como foi que o Senador Alexis morreu?

– De uma luxação da segunda vértebra cervical. Parece que a ação foi suficientemente forte e prolongada para provocar perturbações respiratórias seguidas de parada cardíaca, ele já não tinha o coração em bom estado.

– O masso-rob teria podido executar uma falsa manobra?

– A priori, isto está excluído, eles são perfeitamente programados tecnicamente e sobretudo em função da primeira lei: nunca prejudicar a um ser humano.

– Alphan prossegue: mas se supusermos que o cinésio ordenou-lhe essa manipulação mortal, o masso-rob não poderia, teoricamente, efetuá-la, em nome dessa mesma primeira lei, que tem prioridade sobre a segunda, que o obriga a obedecer. Além disso, todos os dias robôs recebem ordens que não podem executar, em nome da primeira lei, e isso não os coloca em catalepsia. Eles simplesmente não obedecem e pronto. E se se trata de máquinas, perdão, de robôs de classe superior, eles explicam por que não podem fazê-lo.

– É exatamente isso, Inspetor, é incompreensível. Agora, é sua vez de jogar. Se precisar de mim, não hesite! Não havia nenhuma ironia na voz do engenheiro. Alphan, que acabava de provar que sabia mais sobre robôs do que queria deixar transparecer, deu-se conta de que iria, efetivamente, precisar do seu velho amigo, o cinésio-arcaico. O interrogatório da viúva infiel podia esperar.

Confira a segunda parte aqui.

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